Por Luciana Bessa
Literar, desde a
minha adolescência, foi o modo que encontrei de escapar daqueles infortúnios
que a vida teima em colocar em nosso caminho. Primeiro, foi válvula de escape.
Depois , um modo de conexão comigo e com o outro. Fotografar sempre esteve no
campo da apreciação, nada mais.
Recentemente resolvi
participar de duas oficinas no Centro Cultural do Cariri: a primeira, escolhi
pelo título: “Estratégias para enxergar o vento – Pequenos gestos para escrever
com imagens e fotografar com as palavras”, ministrado pela jornalista e fotógrafa
Iana Soares. A segunda, elegi por minha paixão pela poesia: “Da cena ao poema”,
ministrada pela escritora Tércia Montenegro. Ambos os cursos integram o projeto
de formação “A palavra e a imagem: entrelaçamento para criação literária”.
Criar, seja pela
palavra ou pela imagem, são duas formas de se colocar no mundo e “dizer de
si”. Embora literatura e fotografia
sejam artes distintas, ambas estão intrinsecamente relacionadas produzindo mensagens cada vez mais complexas
e potentes.
Pela palavra, o poeta
Manoel de Barros disse que o seu quintal era maior que o mundo, que sentia
saudade do que não foi na infância, que ao invés de fazer peraltagem fazia
solidão e, quando brincava, era de fingimento: lata era navio, pedra era
lagarto, sabugo era um serzinho mal resolvido, etc. Pela fotografia, a inglesa
radicada no Brasil Maureen Bisilliant, nos deu em imagens, aquilo que até
então, nós leitores, só conhecíamos por meio das palavras. Ela, assim como eu,
ficou impactada com a leitura de Grande sertão: Veredas (1957), de Guimarães
Rosa. Então, resolveu investigar a conexão entre o “mundo real” e o “mundo
idealizado” pelo romancista. Fotografou o sertão concebido pelo escritor e
nasceu o livro A João Guimarães Rosa (1966).
Depois dessa
experiência literária-fotográfica, passei a pensar com mais força na
interconexão entre essas duas artes, cuja missão é estabelecer comunicação com
o outro, conexão com nós mesmos.
Além disso, passei a discordar veementemente
da frase atribuída ao filósofo Confúcio: “Uma imagem vale mais do que mil
palavras”. Não, não vale! A imagem é a captação de um momento, que pode ter
sido flagrado de forma natural ou artificial. Se natural, é incapaz de mostrar
com precisão o instante retratado. Se artificial, um cenário é previamente
montado para captação daquela ocasião. Só fica na imagem o que o fotógrafo
determinou. Logo, engana-se quem pensa que é fácil interpretar uma imagem.
Engana-se ainda mais quem acredita ser possível dizer, com a mais fina
precisão, os sentimentos amalgamados.
Deve ser por isso que
muito escuto: Não entendeu? Quer que eu desenhe? Fico me perguntando: se o meu
interlocutor não é capaz de se fazer entendido pela palavra, vai conseguir por
meio da imagem?
Somos fadados a
conviver com a imprecisão da palavra e com os valores atribuídos as imagens. O uso indevido de fotografias de uma
pessoa é punido pela lei (Artigo 5º da Constituição Federal). No campo da
publicidade e da propaganda, o valor de uma imagem vale cifras gastronômicas.
Um comercial de 30 segundos em horário nobre da Rede Globo vale aproximadamente
R$ 508 mil. Mas se for no SuperBowl, principal liga de futebol americano do
mundo, esse valor passa a ser 6 milhões de dólares. Por outro lado, o valor
político e moral de imagem, é bem mais difícil de ser mensurado.
Tenho a leve
impressão de que a geração de hoje tem uma compulsão em tirar fotos,
arquivá-las, e não refletir sobre elas. E a certeza de que se pedirmos aos
jovens para que escrevam um único parágrafo sobre as fotos tiradas, a
dificuldade será tamanha. Afinal, vivemos na no século das novas tecnologias,
que faz uso da inteligência artificial para produção de textos.
Tanto a Literatura
como a Fotografia oferecem um olhar para a realidade circundante, por isso,
fica aqui o convite aos leitores/ fotógrafos para que tenham mais cuidado com
as palavras proferidas, com as imagens postadas, sobretudo, com os diálogos
entre o real e a ficção criados por ambas as artes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário