Quinta-feira, 30 de abril de 1981Batizada de Missão 115 — Operação Centro, a ação previa que os militares fizessem a espionagem do show no Riocentro, celebração do Dia do Trabalhador, que virou manifesto contra a ditadura. Foram escalados dois agentes, com previsão de saída às 18h40min e retorno às 4h20min, usando um Fusca. Outros dois, de forma clandestina, usaram um Puma particular. Por volta das 21h15min, tudo seguia na rotina até uma bomba explodir no Puma em que estavam os dois integrantes do DOI-Codi. À noite, de próprio punho, o coronel Julio Miguel Molinas Dias, comandante do DOI-Codi, fez o relato de como foi informado do atentado. Ele assistia, em casa, à primeira partida da final do Campeonato Brasileiro de 1981, no Estádio Olímpico, vencida pelo Grêmio por 2 a 1.
- Intervalo do jogo do Grêmio x São Paulo, telefonema do agente Reis (codinome de um militar). Disse que um cabo PM telefonara avisando que haveria um acidente com explosivo com uma vítima. Deu o nome quente Dr. Marcos...
Doutor Marcos era o codinome do capitão Wilson Luiz Chaves Machado, chefe da Seção de Operações do DOI-CODI, ferido na explosão. O relato do coronel Molinas, continua falando de como foi informado da morte do sargento Guilherme Pereira do Rosário, ao manipular a bomba:
- (...) Por volta das 22h30min, cheguei ao órgão... dirigi-me à vaga n.1 do comando. (...) O Dr. Wilson (codinome de outro agente), que estava na operação, chegou logo a seguir. O agente Reis, que já chegara, avisou que recebera outro telefonema do mesmo elemento, dizendo que um sargento estava no local, irreconhecível.
- 23h30min —O Globo (talvez referindo-se à notícia que ouviu na Rádio Globo ou na TV) - estouraram duas bombas no estacionamento, destruindo dois carros e uma moto. No segundo carro não houve vítimas.
- 23h30min — Dr. Araújo (codinome de oficial) telefona para saber o que houve.
Molinas relata o estado de saúde do capitão Wilson, motorista do Puma e ferido na explosão:
- 23h30min — Hospital Miguel Couto...Tá sendo operado, vísceras do lado de fora. Estado grave.
De próprio punho, o coronel registra que foram dois os explosivos levados para o Riocentro:
- 23h35min — Uma bomba na casa de força (central de energia do Riocentro) e uma no carro.
Às 23h45min, Molinas afirma ter telefonado ao coronel Leo Frederico Cinelli, chefe do serviço de inteligência do 1º Exército, relatando os fatos. Minutos depois, recebe notícias de alguém sobre o sargento morto e registra:
- 23h50min — O Robot (menção a quem carrega bomba) está morto. Tem uma granada que estava no carro e botaram no chão.
Sexta-feira, 1º de maio de 1981
As anotações de Molinas prosseguem madrugada adentro. Ele trata da remoção do corpo do sargento para o hospital:
- 0h40min — Coronel Cinelli — Falamos sobre a ida da perícia da PE (Polícia do Exército) à paisana e a retirada do corpo.
- 1h01min — Tenente-coronel Portella liga ao HCE (Hospital Central do Exército) para receber o corpo do Robot (sargento Rosário).
- À 1h05min, Molinas recebe ligação de uma pessoa, à qual identifica com Dr. Rodolfo, atualizando notícias sobre o capitão Wilson Machado, ferido na explosão:
- 1h05min — Está sendo operado, dilaceração nas vísceras.
- A partir daí, as anotações se tornam esporádicas:
- 4h24min — Um Chevette aberto cinza metálico com bagageiro placas RT-1719 estava ao lado do carro Puma, com um emblema do 1º BPE.
- 6h05min — Justifico telefonema dizendo que está na cirurgia, Dr. Marcos (codinome do capitão ferido), ortopédica nos braços.
- 17h — Fui para casa.
Sábado, 2 de maio de 1981
Molinas retorna ao DOI-Codi e manda recado ao capitão ferido para que não se pronuncie a respeito do acidente:
- 8h30min — Chegada ao destino (...)Transmitida mensagem ao Dr. Marcos (codinome do capitão ferido) para não fazer esforço para falar, tranquilizando-o.
- (...) Comandante do DOI e comandante do 1º Exército foram para o enterro e hospital.
Foi dada ordem para oficial de permanência ficar em tempo integral no DOI.
Os jornalistas do jornal Zero Hora que recolheram o material onde estavam as anotações do coronel Molina e reproduziram tudo que fizesse referência ao atentado. Inclusive “a farsa” elaborada pela cúpula do 1º Exército, na época comandado pelo general Gentil Marcondes Ferraz:
“Ainda no dia 2, um manuscrito com letra diferente à do coronel Molinas Dias revela uma tentativa de encobrir a autoria do atentado. Foi anotada (talvez por um ordenança do coronel) a necessidade de encontrar o carro particular do sargento morto e providenciar o seu recolhimento ao DOI-Codi. O objetivo pode ter sido evitar que material comprometedor, dentro do veículo, fosse apreendido pela Polícia ou fotografado pela imprensa:
Foi feito contato com a secretaria de segurança para localizar o carro do Wagner (codinome do sargento morto) e comunicar ao DOI (carro roubado). Existe uma equipe de sobreaviso para "puxar" (levar) o carro”.
A anotação segue:
- Foi mandado ao 1º Exército (coronel Cinelli) as fotografias das placas com VPR para aproveitamento na imprensa.
A frase anotada por Molinas Dias fazia referência ao fato de que ex-integrantes da ditadura revelaram que agentes do DOI-Codi picharam placas de sinalização de trânsito nas imediações do Riocentro com a sigla da organização de luta armada de extrema esquerda “Vanguarda Popular Revolucionária”, àquela altura totalmente dizimada. O objetivo dos militares com a pichação era atribuir a autoria do atentado à VPR. Seria uma explosão planejada para botar a culpa em esquerdistas, como descreve o ex-delegado da Polícia Civil Cláudio Guerra, no livro Memórias de uma Guerra Suja.
O coronel Molinas Dias avança seu memorando pelo dia 2 de maio, relatando supostas ameaças de bomba na casa do capitão ferido e no hospital Miguel Couto:
- 13h01min — Família do Dr. Marcos (codinome do capitão) liga para o Dr. Carmelo (codinome de um oficial) no hospital e participa a existência de um embrulho suspeito na porta do apartamento. O Dr. Carmelo telefona ao Dr. Maurício (codinome), oficial permanente, que está providenciando o deslocamento de uma equipe para o local. (...) sob o tapete da porta de entrada tem uma bolsa do Carrefour de material translúcido e dentro tinha dois pães, um inteiro e outro faltando um pedaço.
As supostas ameaças contra integrantes do DOI prosseguem ao longo do dia 2:
- 16h10min — O delegado Tufic, da 14ª DP, telefona para dizer que recebeu dois telefonemas anônimos dando conta de que o capitão Paulo Renault iria jogar uma bomba no quarto do capitão hospitalizado.
- 16h18min — Telefonema para a residência do capitão Paulo Renault, que não atende.
- 16h20min — Ligação para a portaria do prédio que diz, possivelmente o capitão estaria viajando.
“Conforme o blog do jornalista Ricardo Noblat, o capitão seria um Paulo Renault, engenheiro eletrônico, perito judicial, te ex-agente do Serviço Nacional de Informação (SNI). Em 2005, esteve envolvido no escândalo da CPI dos Correios”, complementaram os jornalistas. “Estaria disposto a fazer revelações em depoimento à Justiça, mas desistiu ao ter a casa metralhada”.
- 2 de maio de 1981. Surge outra notícia de plano para matar o oficial ferido, talvez uma manobra para enfatizar que o capitão do DOI-Codi tinha sido vítima de um atentado
- 16h45min — Dr. Wilson (codinome de oficial) liga dizendo que o pessoal do hospital acha bom chamar o plantão policial e a imprensa, dizendo que tinham conhecimento de um plano para eliminar o Dr. Marcos (o capitão ferido).
E continuam as supostas ameaças no dia 2, tentando transformar o capitão de terrorista em vítima. Molinas pede segurança:
- 22h25min — Telefonema do Dr. Marino (codinome de um oficial) avisando de um telefonema anônimo para o Hospital Miguel Couto, avisando que colocariam um petardo na casa do Dr. Marcos (capitão ferido).
- 22h30min — Telefonema para o tenente-coronel Roberval e pede providências junto à PM.
Domingo, 3 de maio de 1981
Molinas anota telefonema recebido de um colega coronel:
- 8h25min - Telefonema do coronel Prado, dizendo que o JB (Jornal do Brasil) tem reportagem em que um médico diz que o capitão estaria em condições de falar. O assunto é tratado com o coronel Cinelli. Mais tarde, outro telefonema — ainda mais preocupante — fala que os agentes se tornam suspeitos de explodir a própria bomba que os feriu:
- 15h50min — Agente Hugo (codinome de policial) liga dizendo que o segurança do Riocentro está comentando que o atentado seria nosso.
Para mudar o foco e jogar a culpa do atentado fracassado no Riocentro na esquerda, Molinas rascunha uma lista de incidentes anteriores, como a suposta tentativa de ataques a unidades militares. O texto é datilografado e enviado ao coronel Cinelli.
Antecedentes
Viemos (sic) apresentar alguns fatos que comprovam a intenção das esquerdas em atingir os órgãos de segurança, em especial os DOIs, tanto no campo da agressão física como em ações psicológicas com objetivo único de desmantelar o aparato repressor ou destruí-lo. No final de 1980 ficaram encarregados de eliminar o Exmo senhor general Antônio Bandeira (que chefiou tropas para o combate aos guerrilheiros no Araguaia, grifo meu), no Sul do país... O atentado seria com risco da própria vida. (Vitimização, na tentativa de angariar simpatia da imprensa).
Molinas conclui:
Face aos atos e fatos apresentados, somados a uma orquestração pela imprensa, acusando os DOIs como responsáveis por tudo que ocorre de mal contra as esquerdas (...) cada elemento do órgão passou a ser um alvo de justiçamento. (...) Quanto ao atentado em si, qualquer conclusão cairá no campo da especulação, correndo o risco de atentar contra a honra e a integridade de um oficial e de um sargento.
Segunda-feira, 4 de maio de 1981
O diário é recheado de documentos. Um deles, um ofício que chega ao DOI-Codi do coronel Luiz Antônio do Prado Ribeiro, encarregado do inquérito policial-militar (IPM) que investiga o atentado. Ele convoca o coronel Molinas Dias para depor às 14h do dia seguinte no 9º andar do Palácio Duque de Caxias, sede do comando 1º Exército.
Sexta-feira, 9 de maio de 1981
Documento confidencial relata um telefonema ao DOI-Codi, às 15h, repassando dados sobre uma mulher de nome Mariangela ou Ângela Capobianco e o local do trabalho do marido dela. O interlocutor descreve a mulher:
"Mais ou menos 45 anos, estatura média, meio gorda, cabelo pintado de caju. É importantíssima, está autorizada (muito cuidado). Trabalha na diretoria de vendas ou arrecadação".
Ângela, conforme citado acima, era a coordenadora de eventos do Riocentro e, apontada como suspeita de ter colaborado com os militares. Após afastar das funções o chefe de segurança do Riocentro, na noite do atentado, ela teria sido responsável pelo fechamento com cadeados da maioria dos portões de saída da área do show. A medida, em caso de explosão de uma bomba, poderia amplificar o número de vítimas.
Quarta-feira, 13 de maio de 1981
Documento afirma que, às 22h de 10 de maio, no bar do Hospital Miguel Couto um homem, em voz alta, acusa o DOI-Codi pelas bombas colocados no Riocentro e no jornal Tribuna da Imprensa. O homem e um amigo dele são levados para a 14ª DP. Lá são interrogados e liberados. São eles: José Augusto Alves Neto, da Rádio JB, e Carlos Vieira Peixoto Filho, do JB (jornal).
Datado deste dia, um manuscrito contém duas perguntas e respostas atribuídas ao agente Guarany (amigo do sargento morto) sobre as habilidades com bombas do agente Wagner (codinome do sargento morto):
- Wagner é técnico em explosivos? Não
Qual o curso ou estágio que fez: Nenhum. É um autodidata
Quarta-feira, 20 de maio de 1981
Em um documento reservado, enviado ao chefe do serviço de inteligência do 1º Exército, Molinas comunica os nomes dos agentes do DOI-Codi escalados oficialmente para "cobrir" o show: sargento da Aeronáutica Carlos Alberto Henrique de Mello e o soldado da Polícia Militar Hirohito Peres Ferreira. O ofício afirma que o chefe da Seção de Operações, capitão Machado, e o sargento Rosário (os vitimados na explosão no Puma) foram ao Riocentro para supervisionar a equipe. Seria a primeira vez que o nome de Machado e Rosário aparece em um documento oficial como tendo participado da desastrada Missão 115.
Segunda-feira, 25 de maio de 1981
Documento confidencial encaminhado às unidades militares pelo comando do 1º Exército sob o título "Atentado Terrorista no Riocentro - informação 312/81" determina ponderação, serenidade e isenção diante de "notícias apresentadas por certos setores da comunicação sensacionalistas e alguns políticos, que muitas vezes não correspondem à verdade".
O documento afirma que o coronel Luiz Antônio do Prado Ribeiro, encarregado da investigação militar do atentado, foi substituído, pois está "baixado no HCE (Hospital Central do Exército) desde 18 de maio para observação, foi submetido à junta de saúde, cuja ata do exame recomenda que lhe sejam concedidos 30 dias de licença para tratamento de saúde.
Anos depois, viria a público a versão de que Ribeiro foi afastado do inquérito porque se recusara a acatar ordens superiores. Teria sido, inclusive, chantageado para reunir provas que apontassem grupos de esquerda como autores do atentado.
Outros personagens anônimos e do meio militar se rebelaram. Restou evidente para todos que o país enfrentava uma revolta de “arapongas” inconformados em perder sua sinecura, os privilégios e o poder, enfim. Certo é que o Riocentro foi o divisor de águas, entre a ditadura e a transição democrática, que dali por diante ganhou as ruas, ganhou força e aconteceu pela pressão da sociedade. Não era mais possível conter o anseio por liberdade.
Confira o documento na íntegra no site Brasil 247:
https://www.brasil247.com/blog/riocentro-o-247-obtem-depoimento-do-capitao-wilson-machado-guardado-ha-43-anos?utm_source=mailerlite&utm_medium=email&utm_campaign=bom_dia_name_as_principais_noticias_desta_manha_no_brasil_247&utm_term=2024-03-29